Início Brasileiro encerra trilogia iorubá com direitos vendidos para cinema e HQ

Brasileiro encerra trilogia iorubá com direitos vendidos para cinema e HQ

Um dos maiores grupos étnicos da África, os iorubás são responsáveis por grande parte dos elementos que influenciaram religiões tradicionais no Brasil, como o candomblé e a umbanda. E é nessa mitologia que P.J. Pereira se aprofundou para escrever a trilogia “Deuses de Dois Mundos”, cujo terceiro volume, “O Livro da Morte”, chegou às primeiras posições das listas de ficção dos livros mais vendidos do país, um espaço raramente frequentado por autores nacionais.

Os dois primeiros livros da saga, “O Livro do Silêncio” e “O Livro da Traição”, também fizeram sucesso e venderam, juntos, cerca de 50 mil exemplares, um número expressivo para um mercado que celebra quando tiragens de 3.000 cópias se esgotam. Além disso, a série reúne mais de 150 mil seguidores em sua página do Facebook e “O Livro do Silêncio”, que já foi publicado em Portugal, está para sair na Polônia e na Nigéria.

Pereira conta que desde pequeno se interessa por mitologia, mas que, apesar de sempre ter ouvido falar de deuses gregos, romanos e nórdicos, nada sabia sobre os africanos. “Sempre morri de medo de macumba. Eu e todos meus amigos, criados na Zona Sul do Rio de Janeiro. Era coisa do demônio, coisa para ficar longe. Um dia, já adulto, conheci um monte de gente bacana ligada ao candomblé e estranhei que pessoas do bem fossem ligadas a algo do ‘mal’, e fui investigar para saber quem estava mentindo. Então não só descobri uma mitologia fascinante, quanto percebi que essas histórias me haviam sido negadas”.

Ao se aprofundar no tema, descobriu uma mitologia na qual os deuses assemelham-se aos homens: são raivosos e com personalidades delicadas. “Foi por ouvir as histórias da boca de quem cultiva essa religião tão viva que me dei conta de como esses deuses imperfeitos e não tão bonzinhos eram diferentes do que eu eu havia conhecido no cristianismo”.

Pereira disse que se surpreendeu por perceber que aquela era uma religião que não procurava a salvação, mas a integração com a natureza. “Como escritor, foi um presente, porque as lendas são às vezes singelas, às vezes violentas, maliciosas, vingativas, sexuais”. Foi com relação à refeição, entretanto, que mais se divertiu. “Os agrados aos orixás são feitos através de suas comidas prediletas. Especialmente a Exu, o mais guloso entre eles. Como também sou guloso, aproveitei essa oportunidade para falar sobre comida. Os dois primeiros livros em especial são uma viagem à gastronomia paulistana do inicio dos anos 2000”.

Em sua obra, duas tramas se entrelaçam: o cotidiano de Newton Fernandes, um ambicioso jornalista, e o sequestro dos deuses responsáveis pelo futuro dos seres humanos. Com a história se passando em um mundo contemporâneo, a tecnologia –algo que normalmente é visto como um contraponto à mitologia ou até mesmo como sua substituta– acaba tendo um papel determinante na saga.

“Eu adoro a relação dos povos com sua própria fé. Adoro estudar as histórias, entender as diferenças, as semelhanças. Mas também sou um geek. Então a tecnologia entrou naturalmente no enredo”, explica Pereira, lembrando que nos dois primeiros livros o protagonista troca e-mails com um sujeito misterioso, profundo conhecedor dos orixás, enquanto o terceiro volume é disposto como mensagens postadas em um blog ou no Facebook, com os últimos acontecimentos sendo os primeiros a serem lidos.

“Essa justaposição entre o ancestral e o moderno foi um exercício bem estimulante. Perceber, por exemplo, que o silêncio dos búzios numa África ancestral seria como se a internet saísse do ar nos dias de hoje foi uma boa maneira de entender as consequências e criar o ambiente que eu queria nos dois mundos que os livros contam”.

Fonte: Uol

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